<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Primeiros Rascunhos: escrita]]></title><description><![CDATA[Textos e ideias sobre o ofício da escrita. ]]></description><link>https://primeiros.substack.com/s/escrita</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mZMc!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5bde4cf7-e14d-41b7-ac12-21443aa47f72_1280x1280.png</url><title>Primeiros Rascunhos: escrita</title><link>https://primeiros.substack.com/s/escrita</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 28 Apr 2026 23:58:44 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://primeiros.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[César Schirmer dos Santos]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[primeiros@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[primeiros@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Cesar Schirmer]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Cesar Schirmer]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[primeiros@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[primeiros@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Cesar Schirmer]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Como Resumir]]></title><description><![CDATA[Boa parte dos leitores nunca passar&#225; do resumo de um texto &#8211; e isso est&#225; ok.]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/como-resumir</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/como-resumir</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Thu, 09 Apr 2026 13:28:43 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jjBV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F71e4c790-9c1a-4c4b-86ed-fb5a32c928d6_638x360.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Boa parte dos leitores nunca passar&#225; do resumo de um texto &#8211; e isso est&#225; ok. &#201; direito dos leitores usarem o tempo como quiserem. N&#243;s, escrevedores, devemos saber disso e escrever resumos que levem nossos leitores, em geral, a julgar bem nossos textos. Eis por que &#233; importante escrever bem um resumo.</p><p>Um resumo &#233; linguagem sobre linguagem. Isto &#233;, um resumo &#233; um tipo de metalinguagem. Como os leitores em geral preferem os resumos aos textos completos, segue que a metalinguagem &#233; amplamente amada.</p><p>Eis uma bela imagem sobre o que &#233; um resumo. Ou melhor, eis uma bela imagem sobre o que &#233; um jardim:</p><blockquote><p>Um jardim &#233; um resumo da civiliza&#231;&#227;o &#8212; uma modifica&#231;&#227;o an&#243;nima da natureza.</p><p>&#8212; Bernardo Soares (Fernando Pessoa), <em>Livro do Desassossego</em></p></blockquote><p>O que se espera de um resumo:</p><ul><li><p>Que seja breve</p></li><li><p>Que seja convincente</p></li></ul><p>Para ser convincente, o resumo precisa ser claro. Busque clareza e simplicidade, alinhando a linguagem ao que o texto de fato diz. Para ser claro, ao resumir um trecho de um texto de filosofia, leve em conta:</p><ul><li><p>O <em>problema</em> (ser e n&#227;o-ser, mente e corpo, determinismo e liberdade etc.)</p></li><li><p>Os <em>conceitos</em> (ser, mente, liberdade etc.), as <em>teses</em> (ser &#233; o que pode ser causa ou efeito, a mente &#233; diferente do corpo, a liberdade &#233; compat&#237;vel com o determinismo etc.), e as <em>teorias</em> centrais (que n&#250;meros n&#227;o existem porque n&#227;o causam nada, que a mente &#233; diferente do corpo porque o corpo &#233; uma coisa extensa e coisas extensas n&#227;o pensam, que somos livres porque a vontade &#233; determinada mas n&#227;o &#233; coagida pela realidade f&#237;sica etc.)</p></li><li><p>Os <em>achados</em> e as conclus&#245;es relevantes (que o dom&#237;nio da matem&#225;tica envolve fic&#231;&#245;es, que a realidade f&#237;sica n&#227;o explica tudo, que nossas decis&#245;es s&#227;o explicadas por elementos subjetivos etc.). Em resumo, o que o autor ganha com a teoria.</p></li></ul><p>Note que esses itens podem ser apresentados em linguagem diferente daquela do texto resumido. Voc&#234; tem essa liberdade porque voc&#234; est&#225; resumindo para seu leitor, n&#227;o para o autor do texto resumido. Mas tenha cuidado com -ismos de manuais. Por exemplo, seria um erro resumir esse trecho do <em>Discurso</em> a partir de uma no&#231;&#227;o tal como &#8220;individualismo metodol&#243;gico&#8221;, pois voc&#234; corre o s&#233;rio risco de substituir o texto a ser resumido por outra coisa. Mas, &#233; claro, voc&#234; pode, depois de resumir fielmente, debater a rela&#231;&#227;o entre o que Descartes disse e, sei l&#225;, &#8220;individualismo metodol&#243;gico&#8221;. Isso pode ser do interesse do teu leitor.</p><p>Sobre como redigir um resumo, voc&#234; deve falar sobre um certo texto filos&#243;fico sem repetir suas frases. No entanto, voc&#234; deve repetir as palavras-chave do trecho resumido. As palavras-chave dizem respeito ao problema, aos conceitos, &#224;s teses, e &#224;s teorias que emolduram ou figuram no texto resumido. Essas palavras-chave devem ser conectadas em novas frases. As novas frases devem ser prosa coerente. Sua meta final, ao redigir o resumo, &#233; criar um texto curto e autoexplicativo que opere independentemente do texto resumido e o projete sem aberra&#231;&#245;es.</p><p>Ou seja, fa&#231;a o resumo parar em p&#233; sozinho: quem ler deve entender o problema, as teses e as conclus&#245;es sem precisar voltar ao texto.</p><p>Ao finalizar a reda&#231;&#227;o do resumo, lembre de come&#231;ar forte e terminar forte. Comece com 1&#8211;2 frases que digam qual &#233; o problema e a tese geral. Termine com 1&#8211;2 frases que destaquem a principal conclus&#227;o filos&#243;fica. Forte, no caso, significa mais pr&#243;ximo dos sentidos e mais pr&#243;ximo da experi&#234;ncia do leitor. Quanto mais abstrato, mais fraco. Quanto mais distante do mundo do leitor, mais fraco. No n&#237;vel das palavras, &#8220;verde&#8221; e &#8220;amarelo&#8221; s&#227;o fortes, &#8220;cor&#8221; &#233; fraca; &#8220;ser capaz de se mover&#8217; &#233; forte; palavras que terminam com -dade, como &#8220;liberdade&#8221;, s&#227;o fracas.</p><p>Vamos testar com a abertura do <em>Discurso do M&#233;todo</em> de Ren&#233; Descartes, aqui na tradu&#231;&#227;o da Unesp (s&#227;o v&#225;rios tradutores). Sublinhei as palavras-chave:</p><blockquote><p>O <em>bom senso</em> &#233; a coisa do mundo mais bem compartida, pois cada um pensa estar t&#227;o bem provido dele que mesmo aqueles que s&#227;o os mais dif&#237;ceis de contentar-se em qualquer outra coisa n&#227;o costumam desejar mais do que j&#225; t&#234;m. No que n&#227;o &#233; veross&#237;mil que todos se enganem, mas isso testemunha, antes, que a capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, que &#233; o que se denomina propriamente bom senso ou raz&#227;o, &#233; naturalmente <em>igual</em> em todos os homens. Do mesmo modo que a diversidade de nossas opini&#245;es n&#227;o vem de que alguns sejam mais razo&#225;veis do que outros, mas somente de <em>conduzirmos</em> nossos pensamentos por vias diferentes e n&#227;o considerarmos as mesmas coisas. Pois n&#227;o &#233; suficiente ter o esp&#237;rito bom, mas o principal &#233; aplic&#225;-lo bem.</p></blockquote><p>Eis o resumo para o contexto deste blog:</p><blockquote><p>Como explicar o desacordo <em>(o problema)</em>? Mesmo que voc&#234; ache que est&#225; sempre certo e todos os outros na internet est&#227;o errados, isso n&#227;o significa que voc&#234; &#233; esperto e s&#225;bio e os outros s&#227;o burros e est&#250;pidos <em>(in&#237;cio forte)</em>. Se voc&#234; ver as coisas como s&#227;o, os outros est&#227;o t&#227;o bem equipados para fazer escolhas a partir do que sabem quanto voc&#234; mesmo <em>(palavras-chave: bom senso, igualdade)</em>. E voc&#234; mesmo, se for honesto, reconhecer&#225; que j&#225; errou bastante, mesmo quando achava estar vendo as coisas como elas s&#227;o <em>(palavras-chave: bom senso, igualdade)</em>. Mas cada um, mesmo sendo capaz de conhecer a verdade t&#227;o bem quanto os outros, pode tomar decis&#245;es diferentes <em>(palavra-chave: conduta)</em>. &#201; a escolha que explica a diverg&#234;ncia, n&#227;o superioridade ou inferioridade intelectual <em>(fecho forte, achado)</em>.</p></blockquote><p>Vamos resumir o in&#237;cio do <em>Contrato Social</em>, de Jean-Jacques Rousseau, aqui na tradu&#231;&#227;o de Eduardo Brand&#227;o:</p><blockquote><p>O homem nasceu <em>livre</em>, e em toda parte vive acorrentado. O que se cr&#234; amo dos outros n&#227;o deixa de ser mais escravo que eles. Como essa mudan&#231;a se deu? N&#227;o sei. O que a p&#244;de tornar leg&#237;tima? Creio poder responder a essa quest&#227;o.</p><p>Se considerasse somente a <em>for&#231;a</em> e o efeito que dela deriva, eu diria: &#8220;Enquanto um povo &#233; constrangido a obedecer, e obedece, faz muito bem; assim que pode se livrar do jugo, e se livra, faz melhor ainda. Porque, recuperando sua liberdade pelo mesmo direito que a tomou dele, ou tem fundamento para retom&#225;-la, ou n&#227;o tinha quem a tomou&#8221;. Mas a <em>ordem social</em> &#233; um direito sagrado, que serve de base a todos os outros. No entanto, esse direito n&#227;o vem da <em>natureza</em>, ele se fundamenta portanto em conven&#231;&#245;es.</p></blockquote><p>No resumo temos que conectar as no&#231;&#245;es de liberdade, natureza, for&#231;a, e sociedade. Por exemplo:</p><blockquote><p>A quest&#227;o que interessa a Rousseau neste trecho &#233; a liberdade <em>(o problema)</em>. Um c&#227;o na coleira n&#227;o &#233; livre <em>(palavra-chave: liberdade)</em>. Voc&#234; amarrado a uma &#225;rvore n&#227;o &#233; livre <em>(in&#237;cio forte)</em>. Mas o que te prende &#233; algo que te impede de se mover fisicamente <em>(palavra-chave: natureza)</em>. H&#225;, no entanto, restri&#231;&#245;es ao agir que n&#227;o s&#227;o f&#237;sicas, mas sim sociais <em>(palavra-chave: ordem social)</em>. Essas restri&#231;&#245;es s&#227;o inventadas <em>(fecho forte)</em>. De modo que o problema &#233; entender os limites sociais da liberdade <em>(achado)</em>.</p></blockquote><p>Em resumo, ao resumir, mapeie cuidadosamente a geografia de um certo texto e lembre-se de quem usar&#225; o mapa.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jjBV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F71e4c790-9c1a-4c4b-86ed-fb5a32c928d6_638x360.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jjBV!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F71e4c790-9c1a-4c4b-86ed-fb5a32c928d6_638x360.jpeg 424w, 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x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Demonstrações Filosóficas?]]></title><description><![CDATA[A filosofia explica muita coisa, mas n&#227;o demonstra nada]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/demonstracoes-filosoficas</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/demonstracoes-filosoficas</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Wed, 01 Apr 2026 18:43:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A verdade &#233; demonstr&#225;vel na filosofia? N&#227;o. A filosofia explica muita coisa, mas n&#227;o demonstra nada. A filosofia nos d&#225; raz&#245;es para agir assim ou assado, mas n&#227;o prova nada com certeza matem&#225;tica.</p><p>Ainda assim, n&#227;o &#233; raro que, num texto de filosofia feito como trabalho para alguma disciplina, TCC, disserta&#231;&#227;o, tese, ou at&#233; mesmo em textos publicados, o autor diga que algo foi <em>demonstrado</em> por algu&#233;m.</p><p>Levando em conta o significado comum do verbo &#8220;demonstrar&#8221;, isso est&#225; ok. No entanto, o significado t&#233;cnico de &#8220;demonstrar&#8221; em filosofia pode te motivar a escolher uma palavra ou express&#227;o mais adequada.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg" width="1456" height="819" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/be25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:819,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hvJc!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe25c935-48ea-4247-913f-e11523b1f131_2048x1152.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Num trabalho t&#233;cnico na &#225;rea de filosofia, se o autor promete uma demonstra&#231;&#227;o, se espera:</p><ul><li><p>Que a demonstra&#231;&#227;o seja, de fato, feita; ou seja, a prova tem que ser clara e articuladamente apresentada, premissa a premissa, at&#233; a conclus&#227;o.</p></li><li><p>Que o assunto seja demonstr&#225;vel.</p></li></ul><p>O primeiro problema &#233; operacional. Dou um exemplo logo em seguida. &#201; algo a ser, de fato, feito. O segundo problema &#233; mais urgente, pois nem tudo &#233; demonstr&#225;vel.</p><p>Hume, na <em>Investiga&#231;&#227;o</em>, d&#225; o seguinte exemplo de pensamento demonstr&#225;vel:</p><blockquote><p>Que tr&#234;s vezes cinco &#233; igual &#224; metade de trinta.</p></blockquote><p>Isso &#233; demonstr&#225;vel de diversas maneiras, algumas melhores do que as outras. Eis uma demonstra&#231;&#227;o n&#227;o muito horrorosa:</p><blockquote><p><em>Premissa 1.</em> 3&#215;5=15 // c&#225;lculo</p><p><em>Premissa 2.</em> 30/2=15 // c&#225;lculo</p><p><em>Premissa 3.</em> 15=15 // lei da identidade</p><p><em>Premissa 4.</em> (15=15)=((3&#215;5)=(30/2)) // lei da identidade</p><p><em>Conclus&#227;o.</em> (3&#215;5)=(30/2) // Q.E.D.</p></blockquote><p>Outros pensamentos matem&#225;ticos e l&#243;gicos s&#227;o, tamb&#233;m, demonstr&#225;veis.</p><p>O que n&#227;o &#233; demonstr&#225;vel &#233; uma quest&#227;o de fato, pois a nega&#231;&#227;o de um fato n&#227;o &#233; contradit&#243;ria.</p><p>Por exemplo, &#233; um fato que o c&#233;u &#233; azul. Mas o c&#233;u poderia ser, sem contradi&#231;&#227;o nenhuma, de qualquer outra cor.</p><p>&#201; um fato que baleias s&#227;o mam&#237;feros, mas o pensamento de que baleias s&#227;o peixes n&#227;o &#233; contradit&#243;rio. E, assim sendo, n&#227;o &#233; apropriado dizer que os naturalistas <em>demonstram</em> que baleias s&#227;o mam&#237;feros. O que os naturalistas fazem &#233; algo muito valioso, mas diferente: eles <em>explicam</em> por que uma baleia &#233; como &#233; a partir de hip&#243;teses sobre a anatomia e o DNA das baleias, o que n&#227;o &#233;, no sentido estrito do termo, demonstrar.</p><p>Note que algumas &#225;reas s&#233;rias e respeitadas usam verbos e express&#245;es filos&#243;ficas como &#8220;especular&#8221; e &#8220;&#233; poss&#237;vel que&#8221; ap&#243;s estudos exaustivos, sempre evitando o verbo &#8220;demonstrar&#8221;. Nas neuroci&#234;ncias, &#233; super comum ver frases do tipo:</p><blockquote><p>&#8220;&#8230; especulamos que &#8230;&#8221;</p><p>&#8220;&#8230; nossa hip&#243;tese &#233; que &#8230;&#8221;</p><p>&#8220;&#8230; os resultados sugerem que &#8230;&#8221;</p><p>&#8220;&#8230; &#233; poss&#237;vel conjecturar que &#8230;&#8221;</p></blockquote><p>E isso faz todo sentido. Os neurocientistas trabalham com experimentos, dados, e coisas que ainda n&#227;o est&#227;o completamente resolvidas. A linguagem deles &#233; honesta: reconhecem que boa parte do que dizem ainda &#233; tentativa, ainda pode ser derrubada por um novo estudo.</p><p>J&#225; na filosofia, a gente v&#234; muito o contr&#225;rio. O pessoal adora dizer que &#8220;demonstrou&#8221;, &#8220;provou&#8221;, &#8220;refutou definitivamente&#8221; ou &#8220;estabeleceu de forma conclusiva&#8221; teses sobre consci&#234;ncia, livre-arb&#237;trio, &#233;tica, realidade&#8230; temas que, na real, quase nunca permitem esse tipo de certeza absoluta. Se ao menos o autor estivesse fazendo explicitamente demonstra&#231;&#245;es, como vemos na <em>&#201;tica</em> de Spinoza&#8230; </p><p>Apesar dos esfor&#231;os do querido Sr. Descartes para provar que nada &#233; mais certo para cada um de n&#243;s do que o conhecimento da pr&#243;pria exist&#234;ncia, n&#227;o h&#225; paralelo entre a certeza matem&#225;tica e qualquer outro tipo de certeza, incluindo a certeza das coisas da metaf&#237;sica e da moral. Como bem nota Hume, o problema n&#227;o &#233; de falta de capacidade de entender, mas sim de fronteiras borradas entre as coisas do mundo:</p><blockquote><p>O is&#243;sceles e o escaleno s&#227;o distinguidos por fronteiras mais exatas do que o v&#237;cio e a virtude, o certo e o errado. (Hume, <em>Investiga&#231;&#227;o</em>, Se&#231;&#227;o 7, Parte 1)</p></blockquote><p>As coisas da matem&#225;tica, em contraste, s&#227;o &#8220;sempre claras e determinadas&#8221;. </p><p>Quando a gente usa &#8220;demonstrar&#8221; onde, na verdade, s&#243; est&#225; argumentando ou defendendo uma ideia, criamos uma ilus&#227;o de certeza que n&#227;o existe. O texto fica parecendo mais &#8220;cient&#237;fico&#8221; do que realmente &#233;, e isso acaba sendo uma falha na comunica&#231;&#227;o.</p><p>Note duas coisas.</p><p>Primeiro, que ningu&#233;m deveria esperar certeza matem&#225;tica da filosofia.</p><p>(Sim, eu sei, alguns esperam. Mas&#8230; leia Hume.)</p><p>Segundo, que mesmo com tal expectativa, devemos avaliar se a alcan&#231;amos, ou n&#227;o, e ser honestos com nossos leitores. Esse &#233; o compromisso fundamental da escrita:</p><div class="pullquote"><p>Seja honesto com seu leitor.</p></div><p>Se voc&#234; especula a partir de elementos muito bem descritos, elementos relevantes para a quest&#227;o que voc&#234; busca responder, antecipando perguntas, est&#225; ok.</p><p>Se voc&#234;, sendo relevante, infere a melhor explica&#231;&#227;o a partir de uma hip&#243;tese educada, a qual foi detalhadamente apresentada, considerando obje&#231;&#245;es, est&#225; ok.</p><div><hr></div><p>A passagem cl&#225;ssica de Hume &#233; a seguinte:</p><blockquote><p><em>Que o sol n&#227;o nascer&#225; amanh&#227;</em> n&#227;o &#233; uma propo&#173;si&#231;&#227;o menos intelig&#237;vel e n&#227;o implica mais contradi&#231;&#227;o do que a assertiva contr&#225;ria, de que <em>o sol nascer&#225;</em>. Seria v&#227;o, por isso, tentar demonstrar a sua falsidade. Se isso fosse demonstrativamente falso, implicaria uma contradi&#231;&#227;o e jamais poderia ser claramente concebido pelo intelecto. (Hume, <em>Investiga&#231;&#227;o</em>, se&#231;&#227;o 4, parte 1, &#167; 21, tradu&#231;&#227;o de Leonel Vallandro) </p></blockquote><div><hr></div><p><em>Atualizado em 2026-04-02, 07h39. </em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como Comentar um Texto Filosófico]]></title><description><![CDATA[Este pequeno guia apresenta um m&#233;todo passo a passo repet&#237;vel para o coment&#225;rio de textos filos&#243;ficos.]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/como-comentar-um-texto-filosofico</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/como-comentar-um-texto-filosofico</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Sun, 22 Feb 2026 12:02:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!O8j5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d4d79cf-0166-425f-aabe-05be7fad5e4c_1994x1329.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!O8j5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d4d79cf-0166-425f-aabe-05be7fad5e4c_1994x1329.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!O8j5!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d4d79cf-0166-425f-aabe-05be7fad5e4c_1994x1329.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!O8j5!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d4d79cf-0166-425f-aabe-05be7fad5e4c_1994x1329.jpeg 848w, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Este pequeno guia apresenta um m&#233;todo passo a passo repet&#237;vel para o coment&#225;rio de textos filos&#243;ficos. Desde que voc&#234; tenha lido e relido atentamente o texto que deseja ou precisa comentar, este m&#233;todo te ajuda a escrever claramente sobre quest&#245;es filos&#243;ficas. Se voc&#234; tiver pr&#225;tica, o m&#233;todo pode funcionar para textos longos, incluindo se&#231;&#245;es e cap&#237;tulos de livros. Mas se trata de um m&#233;todo dirigido a passagens com uma ou duas d&#250;zias de frases. No caso de passagens densas e cruciais, muito menos. Trata-se de um m&#233;todo que funciona para o coment&#225;rio de textos de qualquer tradi&#231;&#227;o filos&#243;fica de qualquer &#233;poca.</p><p>O m&#233;todo tem tr&#234;s fases. Primeiro, uma introdu&#231;&#227;o que serve de moldura para o coment&#225;rio. Segundo, uma an&#225;lise minuciosa o suficiente para capturar o texto no n&#237;vel dos conceitos. Terceiro, uma conclus&#227;o que resume o que o autor tem a dizer sobre uma quest&#227;o filos&#243;fica num certo trecho do seu texto.</p><h1>A Introdu&#231;&#227;o</h1><p>A primeira etapa &#233; a introdu&#231;&#227;o. Em primeiro lugar, apresente o texto. Identifique o autor, a obra, e o assunto. Ao delimitar o assunto, leve em conta a raz&#227;o pela qual voc&#234; est&#225; comentando o texto. Por exemplo, se for para um curso, vincule o assunto o t&#243;pico em estudo no curso. Se for para sua tese, considere o assunto da se&#231;&#227;o ou do cap&#237;tulo no qual se insere seu coment&#225;rio. Por exemplo, se sua tese for sobre a mem&#243;ria:</p><blockquote><p>Na se&#231;&#227;o 10 do cap&#237;tulo 2 do <em>Ensaio sobre o Entendimento Humano</em>, John Locke trata da reten&#231;&#227;o, isto &#233;, da mem&#243;ria.</p></blockquote><p>Segundo, formule o problema ou quest&#227;o que &#233; o centro ou foco da passagem comentada. Vejamos alguns exemplos:</p><blockquote><p>Na Segunda Medita&#231;&#227;o, no trecho sobre o cogito (&#8220;Eu sou, eu existo&#8221;), o problema &#233; que o meditador parece ter colocado tudo em d&#250;vida, e agora tem que checar se n&#227;o h&#225; algo que resista &#224; d&#250;vida hiperb&#243;lica. A quest&#227;o, portanto, &#233; se nada pode ser conhecido ou se h&#225; algo que escape do ceticismo radical.</p></blockquote><p>Ao formular a quest&#227;o dessa maneira, voc&#234; captura o que est&#225; em jogo. Se o meditador, procedendo cuidadosamente, n&#227;o pode achar nada que resista &#224; d&#250;vida, ent&#227;o a filosofia e as ci&#234;ncias n&#227;o t&#234;m base nenhuma. Se o meditador, procedendo metodicamente, for capaz de encontrar algo que resiste &#224; d&#250;vida, ent&#227;o a filosofia e as ci&#234;ncias t&#234;m uma chance. Ao apresentar a quest&#227;o que est&#225; em jogo, voc&#234; deixa claro para seu leitor por que o trecho que voc&#234; est&#225; comentando importa. Pois, se voc&#234; est&#225; comentando a passagem do cogito da Segunda Medita&#231;&#227;o e esta passagem apresenta um pensamento que n&#227;o pode ser duvidado, ent&#227;o a filosofia e as ci&#234;ncias t&#234;m uma esperan&#231;a de sobreviver &#224; corros&#227;o do ceticismo.</p><p>Outro exemplo:</p><blockquote><p>No <em>Tratado da Natureza Humana</em>, Livro 1, Parte 1, Se&#231;&#227;o 1, sobre impress&#245;es e ideias, Hume distingue entre dois tipos de conte&#250;do mental: as impress&#245;es, as quais experienciamos ao perceber algo, e as ideias, as quais s&#227;o retornos de percep&#231;&#245;es anteriores. O problema que logo se apresenta &#233; se todas as ideias derivam de impress&#245;es ou se h&#225; ideias geradas pela pr&#243;pria mente.</p></blockquote><p>Este &#233; o debate entre empiristas e inatistas, com os primeiros estabelecendo que quase todas as ideias v&#234;m de impress&#245;es e os segundos enfatizando que regras l&#243;gicas inatas s&#227;o pressupostos do pensamento sobre qualquer coisa que seja. Assim, o problema &#233; se o pensamento depende da percep&#231;&#227;o.</p><p>Ao emoldurar a passagem a ser comentada dessa maneira, voc&#234; a coloca no mapa da teoria empirista da mente. Neste mapa, o usual &#233; que uma ideia possa, em princ&#237;pio, ser rastreada de volta at&#233; as impress&#245;es que a originaram. E, se uma ideia est&#225; na mente sem ter estado na sensibilidade, o mapa empirista a coloca num p&#226;ntano mal-cheiroso e cheio de mosquitos do tamanho de bolas de ping-pong. Este p&#226;ntano, no mapa racionalista, &#233; o bel&#237;ssimo Mundo das Ideias.</p><p>Eis outro exemplo:</p><blockquote><p>Na se&#231;&#227;o 8 do <em>Discurso de Metaf&#237;sica</em>, Leibniz trata da quest&#227;o sobre a raz&#227;o pela qual o mundo &#233; como &#233;. Por que o mundo &#233; tal que as &#225;rvores d&#227;o frutas em vez de milk-shakes? Por que nossos dentes s&#227;o feitos de ossos em vez de cer&#226;mica ou a&#231;o inoxid&#225;vel?</p></blockquote><p>&#201; esse o tipo de quest&#227;o existencial que interessa a Leibniz na se&#231;&#227;o 8 do <em>Discurso</em>. A resposta de Leibniz &#233; que Deus roda, na sua mente infinita, a qual &#233; como um computador com velocidade de processamento infinita, mem&#243;ria infinita, banco de dados infinito etc. etc., Deus roda todas as possibilidades de mundo na sua mente infinita, incluindo mundos nos quais as &#225;rvores frutificam milk-shake e os dentes s&#227;o tais como facas Tramontina, e escolhe este mundo no qual vivemos, mundo este no qual as &#225;rvores frutificam frutas e os dentes s&#227;o feitos de osso, mas osso meio que do lado de fora do corpo. A pergunta que nos ocorre &#233;, obviamente:</p><p>Por qu&#234;? Ser&#225; porque Deus nos odeia? A resposta de Leibniz &#233; que, ao contr&#225;rio, &#233; porque Deus nos ama. Ao pensar cuidadosamente sobre cada mundo poss&#237;vel, Deus criou aquele que tem o m&#225;ximo de bem e o m&#237;nimo de mal para um mundo que possa ser criado. Leve em conta que ser criatura em vez de ser criador j&#225; &#233; ter certa imperfei&#231;&#227;o, meu caro. Ou seja, perfei&#231;&#227;o absoluta n&#227;o &#233; op&#231;&#227;o para criaturas. A n&#227;o ser, &#233; claro, que Deus e o Mundo sejam a mesma coisa, mas essa &#233; outra quest&#227;o. Essa &#233; a quest&#227;o do pante&#237;smo.</p><p>Voltando ao problema que emoldura a se&#231;&#227;o 8 do <em>Discurso de Metaf&#237;sica</em>, trata-se da quest&#227;o do crit&#233;rio de escolha para a Cria&#231;&#227;o. O crit&#233;rio, nos mostra Leibniz na passagem a ser comentada, &#233; a sele&#231;&#227;o racional a partir do crit&#233;rio do m&#225;ximo de bem poss&#237;vel para uma Cria&#231;&#227;o. Ou seja, Leibniz est&#225; dizendo que se algo existe, &#233; porque &#233; algo que &#233; no m&#237;nimo melhor do que tudo o mais que n&#227;o existe. O que nos leva seja ao pavor dos mundos n&#227;o criados por Deus, seja &#224; suspeita de que n&#227;o existimos e estamos apenas numa simula&#231;&#227;o que rodou na mente de Deus, mas, por clem&#234;ncia divina, nunca veio a ser criada. Isso n&#227;o aliviaria nada, mas explicaria bastante.</p><p>A moldura da explica&#231;&#227;o da exist&#234;ncia do mundo pela racionalidade de Deus envolve o trecho a ser comentado na discuss&#227;o do princ&#237;pio de raz&#227;o suficiente, o qual estabelece que tudo que existe &#233; explic&#225;vel. Se este mundo existe, &#233; porque Deus o quis. Se nosso mundo &#233; mera simula&#231;&#227;o na mente de Deus, &#233; porque Deus n&#227;o seria mau a ponto de ter criado um mundo sem &#225;rvores frutificando milk-shake. Ou algo assim.</p><p>Considerando esses exemplos, ao comentar uma passagem filos&#243;fica, na fase do estabelecer uma moldura que d&#234; contexto ao coment&#225;rio, as seguintes dicas te ajudam a estabelecer um enquadramento que seja genuinamente filos&#243;fico.</p><p>Em primeiro lugar, emoldure de maneira que respeite intelectualmente outras molduras poss&#237;veis. Por exemplo, faz todo sentido colocar Hume numa moldura empirista, pois ele era um empirista. Mas o quadro humeano poderia ficar rid&#237;culo se for&#231;ado a habitar uma moldura racionalista. Se voc&#234; estiver escrevendo com&#233;dia, funciona. Mas, se for escrever com&#233;dia, fa&#231;a-o deliberadamente. Pense em quadros cl&#225;ssicos. A moldura da Mona Lisa &#233; t&#227;o org&#226;nica ao quadro que a esquecemos facilmente. No entanto, seria rid&#237;culo se o Louvre a emoldurasse com figurinhas de Hello Kitty ou com uma moldura com a marca registrada Renault escrita em letras gigantescas. Mutatis mutandis, o mesmo para seu coment&#225;rio. O emoldure. E o emoldure adequadamente. Isto &#233;, n&#227;o force a barra.</p><p>Segundo, emoldure de tal maneira que v&#225; al&#233;m do interesse meramente acad&#234;mico. Sim, eu sei, voc&#234; ter&#225; que emoldurar academicamente, dizendo, quem sabe, que segundo o coment&#225;rio do Prof. Mario L. Xiaomi, Ph.D., a passagem de Descartes&#8230; A academia espera que seu coment&#225;rio seja um meta-coment&#225;rio. Mas lembre que entre a moldura e a pintura h&#225; o paspatur, o qual &#233; aquela parte em branco entre a moldura e a pintura. O mesmo para seu coment&#225;rio. Emoldure de maneira significativa para as pessoas curiosas em geral. Por exemplo, por que este mundo existe em vez de qualquer outro mundo, ou o nada? Se seu professor ou orientador &#233; l&#237;der do f&#227;-clube do ilustre professor Vlad Omar S. Chipotle, coloque os hipn&#243;ticos pensamentos deste ilustre senhor no paspatur. Por exemplo,</p><blockquote><p>Por que o mundo existe? Esta quest&#227;o foi revigorada recentemente pela vigorosa e f&#233;rtil investiga&#231;&#227;o do Prof. Dr. Chipotle. &#8230;</p></blockquote><p>Tendo feito isso, no seu coment&#225;rio, debata a obra filos&#243;fica, n&#227;o o ch&#225; de melissa do Ilustre Doutor. Mas lembre do Dr. Chipotle ao final de par&#225;grafos e se&#231;&#245;es, quando for hora de dormir.</p><p>Quarto, ao comentar uma passagem filos&#243;fica, apresente quest&#245;es respond&#237;veis, ainda que respond&#237;veis apenas filosoficamente. Por exemplo, a quest&#227;o de se algo &#233; conhecido com certeza &#233; desafiadora, mas respond&#237;vel com o trecho do cogito da Segunda Medita&#231;&#227;o, o qual &#233; o assunto do seu coment&#225;rio.</p><p>Mas, e se as ideias dos professores Xiaomi e Chipotle forem realmente boas? Da&#237; as comente. Ainda assim, se elas forem coment&#225;rios, voc&#234; tem que partir, independentemente, do texto comentado. E depois voc&#234; tem que ler criticamente, procurando erros, o que dizem os professores Xiaomi e Chipotle.</p><p>Mas, por que emoldurar na forma de quest&#227;o?</p><p>Porque textos filos&#243;ficos n&#227;o s&#227;o meras apresenta&#231;&#245;es de informa&#231;&#245;es. Em vez disso, um texto filos&#243;fico encara um problema que n&#227;o &#233; sol&#250;vel pelas vias do senso comum e das ci&#234;ncias dispon&#237;veis.</p><p>Se voc&#234; entender isso, ver&#225; que uma moldura do tipo &#8220;O que Descartes pensa sobre o cogito?&#8221; &#233; fraca, pois voc&#234; vai pintar uma lista de informa&#231;&#245;es, as quais v&#234;m melhor na forma de bullets. Por outro lado, se voc&#234; emoldurar seu coment&#225;rio a partir da quest&#227;o sobre se &#233; poss&#237;vel saber de algo com certeza absoluta, h&#225; muito a desenvolver: como se chega a esse problema, como se revela a verdadeira for&#231;a do problema, como se responde ao problema e o que segue da solu&#231;&#227;o etc. etc. Essa &#233; uma moldura muito mais forte. Na moldura fraca, voc&#234; promete uma lista de respostas. Na moldura forte, voc&#234; revela como um ninja filos&#243;fico encara um desafio mortal.</p><p>Al&#233;m disso, n&#227;o deixe a academia te entorpecer. Veja o que aconteceu com Xiaomi e Chipotle, nossos Ph.Ds. Lembre sempre que a filosofia &#233; sobre essas quest&#245;es essenciais que geram molduras fortes para coment&#225;rios de textos filos&#243;ficos. O conhecimento &#233; inato ou adquirido? A busca pelo prazer traz felicidade? Os objetos continuam existindo quando fechamos nossos olhos? O tempo &#233; uma caracter&#237;stica objetiva da realidade ou &#233; uma maneira vegetal e animal de organizar as a&#231;&#245;es requeridas para a sobreviv&#234;ncia e a prolifera&#231;&#227;o? O que devo fazer quando as leis me obrigam a agir contra minha consci&#234;ncia? Somos livres? Tudo tem uma causa? S&#227;o quest&#245;es assim que d&#227;o boas molduras para coment&#225;rios de textos filos&#243;ficos.</p><p>Note que os autores costumam, de alguma maneira, indicar as quest&#245;es que lhes interessam. Procure por passagens que indicam pol&#234;micas: &#8220;Alguns defendem x, enquanto outros defendem y&#8221;. Ou sobre conflitos cognitivos: &#8220;Parece que o bast&#227;o na &#225;gua est&#225; quebrado, mas achamos que n&#227;o&#8221;. Ou, mesmo, exposi&#231;&#245;es diretas das quest&#245;es: &#8220;O problema &#233; que &#8230;&#8221;.</p><p>Se o autor comentado &#233; econ&#244;mico ou afor&#237;stico, pense no que de filosoficamente interessante seria respondido pela passagem comentada. Pense que o trecho &#233; necess&#225;rio por alguma raz&#227;o. Que raz&#227;o seria essa? Por que o autor se deu ao trabalho de escrever isso? O que o preocupava? Contra quem ou o que ele se posiciona?</p><p>Por exemplo, ao ler Descartes dizendo que a mente &#233; diferente do corpo, considere que a alternativa seria defender que a mente &#233; igual ao corpo. A partir dessa considera&#231;&#227;o, voc&#234; chegou a uma tens&#227;o. A tens&#227;o &#233; apresent&#225;vel como uma quest&#227;o:</p><blockquote><p>Mente e corpo s&#227;o a mesma coisa?</p></blockquote><p>Levando em conta esta quest&#227;o emoldurante, descreva a pintura, isto &#233;, a resposta do autor comentado &#224; quest&#227;o.</p><p>A terceira coisa a se fazer na fase da introdu&#231;&#227;o &#233; expor clara e explicitamente a solu&#231;&#227;o que o autor apresenta, no texto comentador, para o problema. Por exemplo, explicitar claramente que Descartes, na Segunda Medita&#231;&#227;o, encontra um conhecimento que sobrevive &#224; d&#250;vida radical; que Hume estabelece que praticamente todas as ideias surgem de impress&#245;es, a exce&#231;&#227;o sendo, por exemplo, um certo tom de azul que voc&#234; nunca viu mas est&#225; entre dois tons de azul que voc&#234; j&#225; viu; que Leibniz, na se&#231;&#227;o 8 do <em>Discurso de Metaf&#237;sica</em>, defende que o mundo criado por Deus &#233; o melhor mundo poss&#237;vel.</p><p>A &#250;ltima etapa da introdu&#231;&#227;o &#233; esbo&#231;ar o plano do seu coment&#225;rio de texto filos&#243;fico. A primeira coisa a se fazer &#233; quebrar o texto comentado em partes menores. Eu recomendo fortemente quebrar o texto em dois, tr&#234;s, ou quatro grupos de frases. Acho que a frase &#233; um bom elemento de an&#225;lise, pois as frases d&#227;o contexto aos conceitos.</p><p>Pois considere o in&#237;cio do livro 4 (Gama) da <em>Metaf&#237;sica</em> de Arist&#243;teles. O assunto &#233; a exist&#234;ncia de uma ci&#234;ncia do ser enquanto ser. Na numera&#231;&#227;o padr&#227;o da obra de Arist&#243;teles, &#233; o trecho 1003 a 21&#8211;32. Em algumas tradu&#231;&#245;es, este trecho inicia com um par&#225;grafo constitu&#237;do por quatro frases, cada uma bem complexa. Eu comentaria o trecho quebrando-o em quatro partes, cada uma constitu&#237;da por uma frase. No meu plano, eu informaria desta minha decis&#227;o sobre o procedimento de an&#225;lise, e diria que a frase 1 estabelece que h&#225; uma ci&#234;ncia do ser enquanto ser; que a frase 2 separa o campo de investiga&#231;&#227;o da ci&#234;ncia do ser enquanto ser dos campos de investiga&#231;&#227;o de quaisquer outras ci&#234;ncias; que a frase 3 evidencia que deve haver tal ci&#234;ncia por haver princ&#237;pios que se aplicam ao ser enquanto ser; que a frase 4 usa a frase 3 para chegar onde se queria chegar: na tese da frase 1, que h&#225; uma ci&#234;ncia do ser enquanto ser.</p><p>Ou seja, o final da introdu&#231;&#227;o ao seu coment&#225;rio &#233; o mapa do percurso pelo qual voc&#234; guiar&#225; seu leitor.</p><h1>O Coment&#225;rio</h1><p>A segunda etapa do seu coment&#225;rio de texto filos&#243;fico &#233; o coment&#225;rio propriamente dito. Te proponho usar, para cada trecho a ser coment&#225;rio, um loop com quatro passos: cita&#231;&#227;o, reformula&#231;&#227;o, defini&#231;&#227;o, e exemplifica&#231;&#227;o.</p><p>Por exemplo, eu quebrei o in&#237;cio do livro Gama da <em>Metaf&#237;sica</em> de Arist&#243;teles em quatro frases. Para cada frase, eu sigo cada um dos quatro passos do loop.</p><p>O primeiro passo seria citar e reformular a frase 1. Citar &#233; apresentar, fielmente, o texto original. Reformular &#233; reescrever o texto citado com suas pr&#243;prias palavras. Esse passo &#233; importante, pois revela se voc&#234; entende, ou n&#227;o, o que est&#225; comentando. Aqui voc&#234; pode usar conectores tais como &#8220;Esta frase quer dizer que &#8230;&#8221; , &#8220;Em outras palavras &#8230;&#8221;, &#8220;O autor est&#225; dizendo que &#8230;&#8221;. Por exemplo, ap&#243;s uma breve transi&#231;&#227;o, voc&#234; cita:</p><blockquote><p>Existe, com efeito, uma ci&#234;ncia que investiga o ser enquanto ser, assim como suas respectivas propriedades inerentes, devido &#224; sua pr&#243;pria natureza. (1003 a 21&#8211;23)</p></blockquote><p>Em seguida, voc&#234; reformula. Poderia ser assim:</p><blockquote><p>No in&#237;cio do livro Gama (livro 4) da <em>Metaf&#237;sica</em>, Arist&#243;teles afirma que h&#225; uma ci&#234;ncia que investiga as coisas que existem n&#227;o enquanto s&#227;o isso ou aquilo, mas enquanto s&#227;o. Trata-se de uma ci&#234;ncia que n&#227;o se ocupa do ser uma formiga, nem do ser uma cor, nem do ser um estar ao lado, etc. etc., mas do que &#233;, para qualquer coisa que &#233;, ser.</p></blockquote><p>A terceira etapa do loop de coment&#225;rio &#233; definir uma ou mais palavras-chave que fazem parte do trecho comentado. Creio que voc&#234; concordaria que, no caso apresentado acima, a palavra-chave &#233; &#8220;ser&#8221;.</p><p>Para definir, voc&#234; precisa pensar sobre o papel da palavra no texto comentado. Voc&#234; pode pensar sobre isso a partir de contrastes e substitui&#231;&#245;es imagin&#225;rias. O que seria dito se, em vez da palavra &#8220;ser&#8221;, Arist&#243;teles tivesse usado a palavra &#8220;zorrilho&#8221;? Como ficaria a express&#227;o &#8220;ser enquanto ser&#8221;? Seria &#8220;zorrilho enquanto zorrilho&#8221;? &#8220;Zorrilho enquanto ser?&#8221; &#8220;Ser enquanto zorrilho?&#8221; O que h&#225; de similar entre a express&#227;o original e a express&#227;o transformada? O que &#233; diferente? Pense nisso ao definir a palavra-chave do trecho comentado. Mas tamb&#233;m leve em conta o que diria um bom dicion&#225;rio ou enciclop&#233;dia filos&#243;fica.</p><p>Seguindo no meu exemplo, voc&#234; poderia dizer que &#8220;ser&#8221; &#233; qualquer coisa existente, e tamb&#233;m qualquer aspecto de qualquer coisa. Por exemplo, n&#227;o s&#243; o zorrilho &#233;, pois suas listras brancas tamb&#233;m s&#227;o ou existem. De modo que, como diz Arist&#243;teles na mesma obra, o ser se diz de muitas maneiras.</p><p>Ao usar um dicion&#225;rio ou enciclop&#233;dia, mostre que voc&#234; entende o que o dicion&#225;rio diz. N&#227;o basta ventriloquar que, segundo alguns, &#8220;ser&#8221; &#233; indefin&#237;vel. &#201; preciso, tamb&#233;m, reformular com sua pr&#243;pria boca o que isso quer dizer. E notar se este sentido de &#8220;ser&#8221; &#233; relevante para a discuss&#227;o do trecho que est&#225; sendo comentado. O mesmo para outros casos.</p><p>A etapa de defini&#231;&#227;o &#233; importante por revelar se voc&#234; entende, ou n&#227;o, que a mesma palavra pode ter diferentes significados em diferentes frases. Serve tamb&#233;m para revelar se voc&#234; sabe qual o significado relevante.</p><p>O quarto passo do loop do coment&#225;rio &#233; ilustrar ou exemplificar. Mantendo o mesmo caso:</p><blockquote><p>Considere o brilho de um diamante exposto na vitrine de uma relojoaria. Obviamente, o brilho existe, pois pode ser visto de certo &#226;ngulo em certo momento. Podemos considerar esse brilho como efeito de &#243;ptica, ou como s&#237;mbolo de status social. Tamb&#233;m podemos consider&#225;-lo, est&#225; propondo Arist&#243;teles, como algo que poderia ser investigado &#8220;enquanto ser&#8221;. Isto &#233;, enquanto parte da realidade, o que &#233; algo a ser explicado n&#227;o pela &#243;ptica nem pela joalheria, mas sim pela ci&#234;ncia que Arist&#243;teles est&#225; propondo: a ci&#234;ncia do ser enquanto ser.</p></blockquote><p>Seguindo a ordem do texto, voc&#234; repete este loop para cada trecho a ser comentado. Eis o miolo deste m&#233;todo de coment&#225;rio de texto filos&#243;fico.</p><h1>A Conclus&#227;o</h1><p>A terceira e &#250;ltima etapa deste procedimento para o coment&#225;rio de um texto filos&#243;fico &#233; a conclus&#227;o. Aqui, cabe a voc&#234; revisitar a quest&#227;o a ser respondida pelo trecho comentado, a resposta dada pelo autor, e um resumo de como o autor passa do problema &#224; solu&#231;&#227;o.</p><p>Digamos que voc&#234; esteja comentando um trecho de Plat&#227;o no qual ele defende que a alma sobrevive &#224; morte do corpo. Voc&#234; come&#231;a a conclus&#227;o revisitando a quest&#227;o inicial, a qual seria, quem sabe, a quest&#227;o sobre a imortalidade da alma. Em seguida, voc&#234; revisitaria a conclus&#227;o de Plat&#227;o no texto comentado: a alma &#233; imortal. Por fim, voc&#234; resumiria as raz&#245;es que Plat&#227;o d&#225;, no trecho comentado, para concluirmos que a alma &#233; imortal. Dependendo do trecho comentado, pode ser porque a natureza da alma &#233; diferente da natureza do corpo, ou porque a alma &#233; simples, e o simples n&#227;o pode ser destru&#237;do etc. etc.</p><p>O que n&#227;o fazer, na conclus&#227;o, &#233; abrir uma nova quest&#227;o. A n&#227;o ser, de maneira ret&#243;rica, para dizer que isso ser&#225; assunto para outra ocasi&#227;o. Ou, de maneira pr&#225;tica, para dizer que isso ser&#225; tratado em outra se&#231;&#227;o ou cap&#237;tulo da sua tese.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Termine]]></title><description><![CDATA[Por que seu texto n&#227;o parece pronto (e o que fazer a respeito)]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/termine</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/termine</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Sun, 14 Dec 2025 12:01:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bi9q!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90b71653-4cbd-489f-abe2-f576a5b93500_3359x2246.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bi9q!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90b71653-4cbd-489f-abe2-f576a5b93500_3359x2246.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bi9q!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90b71653-4cbd-489f-abe2-f576a5b93500_3359x2246.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bi9q!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90b71653-4cbd-489f-abe2-f576a5b93500_3359x2246.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bi9q!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90b71653-4cbd-489f-abe2-f576a5b93500_3359x2246.jpeg 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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Voc&#234; rel&#234; o texto. Algo soa estranho. &#201; como um quebra-cabe&#231;as faltando uma pe&#231;a. Tamb&#233;m &#233; como um quebra-cabe&#231;as com todas as pe&#231;as. Mas voc&#234; desconfia que h&#225; pe&#231;as que foram marteladas ou recortadas no lugar errado. </p><p>N&#227;o &#233; um erro gramatical, nem uma frase mal constru&#237;da. &#201; outra coisa: </p><p>A sensa&#231;&#227;o de que falta algo. </p><p>O texto parece incompleto, mas voc&#234; n&#227;o sabe exatamente o que falta. Voc&#234; n&#227;o sabe nem <em>se</em> falta algo. Voc&#234; trava. N&#227;o consegue avan&#231;ar nem declarar solenemente que o trabalho terminou.</p><p>Essa experi&#234;ncia &#233; comum entre quem escreve filosofia (seja um estudante redigindo seu primeiro ensaio, seja um pesquisador trabalhando em um artigo). A boa not&#237;cia &#233; que essa sensa&#231;&#227;o n&#227;o &#233; um defeito seu. Ela &#233; um sinal de que voc&#234; est&#225; pensando filosoficamente. A m&#225; not&#237;cia &#233; que, sem um m&#233;todo para lidar com essa sensa&#231;&#227;o de que falta um n&#227;o-sei-qu&#234;, voc&#234; pode ficar paralisado indefinidamente.</p><p>Como presente de Natal, te ofere&#231;o duas coisas:</p><p>Primeiro, um conjunto de perguntas pra te desatolar e colocar teu texto em movimento.</p><p>Segundo, crit&#233;rios para saber quando parar.</p><h1>A incompletude como sintoma</h1><p>Quando sentimos que um texto n&#227;o est&#225; pronto, &#224;s vezes &#233; porque intu&#237;mos que h&#225; ou pode haver quest&#245;es relevantes que ainda n&#227;o foram respondidas. N&#227;o se trata de uma falha t&#233;cnica. &#201; uma percep&#231;&#227;o genu&#237;na: o argumento levanta problemas que ele mesmo n&#227;o resolve.</p><p>Isso acontece porque a escrita filos&#243;fica tem uma caracter&#237;stica peculiar. Cada tese que voc&#234; defende abre novas frentes de discuss&#227;o. Se voc&#234; argumenta que a mem&#243;ria &#233; reconstrutiva, algu&#233;m pode perguntar: reconstrutiva a partir de qu&#234;? Se voc&#234; defende que o conte&#250;do mental depende do ambiente, surge a quest&#227;o: como explicar o autoconhecimento? Cada resposta gera novas perguntas. O texto filos&#243;fico &#233; um organismo que ramifica.</p><p>Quando voc&#234; sente que o texto est&#225; incompleto, voc&#234; est&#225; percebendo essas ramifica&#231;&#245;es n&#227;o exploradas. At&#233; aqui, tudo bem. O problema &#233; que essa percep&#231;&#227;o costuma ser vaga. Voc&#234; sabe que falta algo, mas n&#227;o sabe o qu&#234;. E, sem saber o qu&#234;, voc&#234; n&#227;o consegue agir.</p><h1>Saber quais perguntas fazer</h1><p>A dificuldade n&#227;o est&#225; em responder &#224;s quest&#245;es pendentes. Est&#225; em identific&#225;-las.</p><p>Quando olhamos para nosso pr&#243;prio texto, temos uma vis&#227;o limitada. Conhecemos demais o argumento; estamos imersos nele. &#201; como tentar encontrar um objeto perdido em casa: voc&#234; olha para os mesmos lugares repetidamente, porque sua mente j&#225; construiu um mapa do que deveria estar onde. Precisa de um olhar externo, ou de um m&#233;todo sistem&#225;tico, para encontrar o que est&#225; escondido &#224; vista. (Leia &#8220;A Carta Roubada&#8221;, do Edgar Allan Poe.) </p><p>O mesmo vale para a escrita. Voc&#234; precisa de perguntas que funcionem como lanternas, iluminando cantos do argumento que voc&#234; n&#227;o explorou.</p><h1>Oito perguntas para desatolar seu texto</h1><p>O que segue n&#227;o s&#227;o perguntas ret&#243;ricas. S&#227;o ferramentas de trabalho. Leia cada uma e avalie: isso est&#225; claro no meu texto? Isso foi abordado? Quando a resposta for &#8220;n&#227;o&#8221; ou &#8220;mais ou menos&#8221;, voc&#234; encontrar&#225; uma dire&#231;&#227;o de amplia&#231;&#227;o.</p><h2>1. Qual &#233; o problema que voc&#234; est&#225; tentando resolver?</h2><p>Parece &#243;bvio, mas muitos textos fracassam aqui. Se voc&#234; n&#227;o consegue formular o problema em uma ou duas frases, o leitor tamb&#233;m n&#227;o conseguir&#225;. Qual &#233; o quebra-cabe&#231;a que seu texto enfrenta? Formule-o.</p><h2>2. O que outras pessoas j&#225; disseram sobre esse problema?</h2><p>Nenhum problema filos&#243;fico surge do nada. Outros pensadores j&#225; pensaram sobre ele, propuseram solu&#231;&#245;es, levantaram obje&#231;&#245;es. Voc&#234; conhece essas posi&#231;&#245;es? Consegue apresent&#225;-las de modo justo antes de oferecer a sua?</p><h2>3. Qual &#233; a sua posi&#231;&#227;o?</h2><p>N&#227;o basta descrever o debate. &#201; preciso tomar partido. Qual &#233; a resposta que voc&#234; defende? Se voc&#234; n&#227;o consegue formular sua tese em uma frase, talvez ainda n&#227;o tenha uma tese.</p><h2>4. Quais s&#227;o as obje&#231;&#245;es mais fortes contra sua posi&#231;&#227;o?</h2><p>Este &#233; um teste crucial. Se voc&#234; n&#227;o consegue imaginar obje&#231;&#245;es ao seu argumento, provavelmente n&#227;o entendeu bem o problema. Todo argumento filos&#243;fico interessante enfrenta resist&#234;ncia. Antecipe as cr&#237;ticas mais fortes e responda a elas no corpo do texto.</p><p>Ah, e d&#234; o m&#225;ximo de for&#231;a a cada obje&#231;&#227;o. Reconhe&#231;a o valor das obje&#231;&#245;es. N&#227;o as transforme em espantalhos. Transforme-as em bosses de final de bons jogos. </p><p>Em um jogo bom, o boss final s&#243; pode ser vencido se voc&#234; domina cada uma das habilidades requeridas para jogar bem o jogo. Pense nas habilidades filos&#243;ficas que s&#227;o requeridas para vencer o advers&#225;rio final da sua posi&#231;&#227;o. Tem a ver com l&#243;gica? Tem a ver com adequa&#231;&#227;o aos fatos? D&#234; ao seu advers&#225;rio o que ele merece e seja honesto com seu leitor. Se voc&#234; n&#227;o vence este boss final, deixe claro o que seus esfor&#231;os alcan&#231;am e d&#234; ao outro o que o outro merece. Seus leitores v&#227;o gostar disso. Se sua vis&#227;o das coisas &#233; vulner&#225;vel, reconhe&#231;a a vulnerabilidade. Isso &#233; honestidade intelectual. </p><h2>5. O que seu argumento implica para outras &#225;reas?</h2><p>Se sua tese est&#225; correta, o que mais se segue? H&#225; consequ&#234;ncias para a &#233;tica, para a epistemologia, para a filosofia pol&#237;tica? Argumentos filos&#243;ficos n&#227;o existem isolados; eles se conectam a uma rede maior de problemas.</p><h2>6. Quais s&#227;o as implica&#231;&#245;es pr&#225;ticas?</h2><p>Nem todo argumento tem implica&#231;&#245;es pr&#225;ticas diretas, mas muitos t&#234;m. Se sua posi&#231;&#227;o estiver correta, isso muda algo no modo como devemos agir, decidir ou organizar a vida em comum?</p><p>Aqui, no entanto, cuidado. N&#227;o suponha que seu argumento tenha implica&#231;&#245;es que n&#227;o tem. E, por favor, se voc&#234; n&#227;o &#233; um terapeuta, n&#227;o se arrisque ingenuamente a propor sua posi&#231;&#227;o filos&#243;fica como terapia. Isso n&#227;o s&#243; pode ter problemas &#233;ticos como, n&#227;o raro, &#233; rid&#237;culo. Sim, entender as coisas melhor &#233; uma esp&#233;cie de terapia, se gostamos de met&#225;foras. Eu, por exemplo, gosto de met&#225;foras. Mas temos que cuidar para n&#227;o sermos levianos ou arrogantes ante o sofrimento real. </p><h2>7. Como seu argumento se relaciona com a literatura existente?</h2><p>Voc&#234; est&#225; refinando uma teoria conhecida? Criticando uma posi&#231;&#227;o estabelecida? Propondo algo novo? Situar seu argumento no mapa do debate ajuda o leitor a entender sua contribui&#231;&#227;o.</p><h2>8. Para onde seu argumento aponta?</h2><p>Quais quest&#245;es permanecem abertas? O que voc&#234; gostaria de investigar em seguida? Um bom texto filos&#243;fico n&#227;o apenas resolve problemas; ele revela novos problemas a serem explorados.</p><h1>Como usar essas perguntas</h1><p>Voc&#234; n&#227;o precisa responder a todas as perguntas no seu texto. Algumas ser&#227;o mais relevantes que as outras. O ponto &#233; us&#225;-las como diagn&#243;stico.</p><p>A sensa&#231;&#227;o de incompletude deixa de ser vaga quando voc&#234; consegue nome&#225;-la. &#8220;O texto n&#227;o est&#225; pronto&#8221; se transforma em &#8220;o texto n&#227;o antecipa obje&#231;&#245;es&#8221; ou &#8220;o texto n&#227;o situa minha posi&#231;&#227;o no debate&#8221;. Problemas nomeados s&#227;o problemas que podem ser resolvidos. Voc&#234; sai da paralisia e entra em movimento.</p><p>Mas h&#225; um risco. As perguntas podem colocar voc&#234; para trabalhar indefinidamente. Cada resposta gera novas perguntas, lembra? Voc&#234; precisa saber quando parar.</p><h1>Quando parar: o texto bom o suficiente</h1><p>Aqui est&#225; uma verdade dif&#237;cil de aceitar: voc&#234; n&#227;o est&#225; buscando o texto perfeito. Est&#225; buscando o texto bom o suficiente.</p><p>&#8220;Bom o suficiente&#8221; n&#227;o significa desleixado. Significa que o texto cumpre sua fun&#231;&#227;o: apresenta um problema, defende uma posi&#231;&#227;o, responde &#224;s obje&#231;&#245;es principais, e mostra por que isso importa. N&#227;o significa que seu texto esgotou todas as ramifica&#231;&#245;es poss&#237;veis. Isso &#233; imposs&#237;vel. Um ensaio pode se espalhar tanto quanto um cogumelo. N&#227;o &#233; isso que queremos. </p><p>Para saber se voc&#234; chegou l&#225;, tr&#234;s testes ajudam.</p><h2>Primeiro teste: cada par&#225;grafo avan&#231;a o argumento?</h2><p>Leia seu texto e pergunte, a cada par&#225;grafo: </p><p>Isso faz o argumento progredir? Ou isso apenas ocupa espa&#231;o? </p><p>Se um par&#225;grafo n&#227;o avan&#231;a nada, corte ou reescreva. Textos que parecem incompletos frequentemente t&#234;m par&#225;grafos que n&#227;o cumprem nenhuma fun&#231;&#227;o. S&#227;o como remos em uma bicicleta. A solu&#231;&#227;o n&#227;o &#233; adicionar mais, mas cortar o que n&#227;o serve.</p><h2>Segundo teste: a conclus&#227;o &#233; sua tese na forma mais forte?</h2><p>A conclus&#227;o n&#227;o &#233; um resumo. &#201; o lugar onde sua tese aparece em sua vers&#227;o mais clara e mais forte, depois de ter sido constru&#237;da ao longo do texto. E, depois disso, um passo a mais: uma implica&#231;&#227;o, um &#8220;e da&#237;?&#8221;, uma quest&#227;o deixada para o leitor. Algo que voc&#234; n&#227;o vai responder no seu ensaio, mas voc&#234; reconhece que &#233; intrigante e convidativo. </p><p>Se sua conclus&#227;o apenas repete o que voc&#234; j&#225; disse, reescreva. Pergunte: o que eu realmente mostrei? Por que isso importa al&#233;m deste caso espec&#237;fico? Responda em tr&#234;s ou quatro frases. Depois, corte at&#233; ficar justo.</p><p>Detalhe:</p><p>Se seu orientador ou editor te pedir para adicionar uma conclus&#227;o que simplesmente repete o j&#225; dito, simplesmente fa&#231;a mecanicamente o que te foi pedido. Voc&#234; sabe onde seu texto termina:</p><p>Na vers&#227;o mais clara e mais forte da apresenta&#231;&#227;o da sua posi&#231;&#227;o. </p><p>Seus leitores tamb&#233;m saber&#227;o. </p><h2>Terceiro teste: o que o leitor perde se eu cortar esta frase?</h2><p>Eis uma dica do Gary Provost: </p><p>Comece pela &#250;ltima frase do texto. Pergunte: o que o leitor perde se eu riscar isso? Se a resposta for &#8220;nada&#8221; ou &#8220;n&#227;o sei&#8221;, risque. Fa&#231;a o mesmo com a pen&#250;ltima frase. Continue retrocedendo at&#233; chegar a uma frase de que o texto genuinamente precise: uma frase que soe final. Essa &#233; sua &#250;ltima frase. Pare a&#237;.</p><p>Voc&#234; pode aplicar o mesmo teste ao in&#237;cio. Risque cada frase de abertura at&#233; encontrar uma que voc&#234; n&#227;o possa cortar. Essa &#233; sua verdadeira abertura.</p><h1>A decis&#227;o de terminar</h1><p>Em algum momento, voc&#234; precisa declarar o texto pronto. Isso &#233; uma decis&#227;o, n&#227;o uma descoberta. Voc&#234; n&#227;o vai acordar um dia e perceber que o texto est&#225; objetivamente terminado. Voc&#234; vai decidir que ele est&#225; bom o suficiente para cumprir sua fun&#231;&#227;o.</p><p>Essa atitude &#233; bem resumida nos h&#225;bitos profissionais do escritor Robert Heinlein:</p><ol><li><p>Escreva</p></li><li><p>Termine</p></li><li><p>N&#227;o reescreva</p></li><li><p>Submeta</p></li><li><p>Publique</p></li></ol><p>A terceira regra &#233; fundamental: n&#227;o reescreva. Note que esta regra vem depois da regra 2: <em>termine</em>. Ou seja: se voc&#234; <em>terminou</em>, ent&#227;o <em>n&#227;o</em> reescreva. </p><p>&#201; claro, sobre o que se d&#225; <em>antes</em> de terminar, na pr&#225;tica quase n&#227;o d&#225; para escrever sem reescrever. D&#225; para tentar escrever minimizando a reescrita. Por exemplo, alguns escritores profissionais modernos que vivem de publicar ebooks prop&#245;em o m&#233;todo do &#8220;writing into the dark&#8221;, a &#8220;escrita rumo &#224; escurid&#227;o&#8221;. Trata-se de ir escrevendo de maneira consciente (1) sem um plano pr&#233;vio e (2) corrigindo os erros em tempo real. Creio que &#233; um m&#233;todo criativo &#250;til. Mas acho ing&#234;nuo crer que, na pr&#225;tica, isso possa de fato impedir a reescrita antes do t&#233;rmino. </p><p>A decis&#227;o de terminar exige coragem. A tenta&#231;&#227;o &#233; continuar mexendo, continuar ampliando, adiar indefinidamente o momento de soltar o texto no mundo. Mas a revis&#227;o infinita n&#227;o &#233; rigor: &#233; medo disfar&#231;ado.</p><p>Depois de aplicar as perguntas que desatolam, depois de verificar que cada par&#225;grafo avan&#231;a o argumento, depois de reescrever a conclus&#227;o como tese na forma mais forte, depois de cortar o excesso do fim e do come&#231;o&#8230; depois de tudo isso, declare seu texto terminado.</p><p>Submeta. </p><h1>Um &#250;ltimo ponto</h1><p>Talvez voc&#234; nunca sinta que o texto est&#225; completamente pronto. E talvez isso seja adequado. A filosofia &#233; investiga&#231;&#227;o cont&#237;nua. Cada texto &#233; uma contribui&#231;&#227;o parcial para uma conversa maior, n&#227;o a palavra final sobre o assunto.</p><p>O objetivo n&#227;o &#233; eliminar a sensa&#231;&#227;o de incompletude, mas aprender a distinguir dois tipos dela. A incompletude produtiva aponta para trabalhos futuros: quest&#245;es que voc&#234; pode explorar em outros textos. A incompletude problem&#225;tica indica lacunas no argumento atual: quest&#245;es que voc&#234; precisa resolver agora. As perguntas e os testes que apresentei ajudam nessa distin&#231;&#227;o.</p><p>Com eles, a intui&#231;&#227;o vaga de que falta algo se transforma em uma lista de tarefas. E com uma lista de tarefas, voc&#234; pode trabalhar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os Elementos da Escrita]]></title><description><![CDATA[O ato de escrever envolve sete elementos:]]></description><link>https://primeiros.substack.com/p/os-elementos-da-escrita</link><guid isPermaLink="false">https://primeiros.substack.com/p/os-elementos-da-escrita</guid><dc:creator><![CDATA[Cesar Schirmer]]></dc:creator><pubDate>Sat, 21 Jun 2025 12:03:12 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lzDs!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F31f89b64-d6ad-4ce5-a540-2a7895012943_1742x650.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lzDs!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F31f89b64-d6ad-4ce5-a540-2a7895012943_1742x650.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lzDs!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F31f89b64-d6ad-4ce5-a540-2a7895012943_1742x650.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lzDs!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F31f89b64-d6ad-4ce5-a540-2a7895012943_1742x650.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lzDs!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F31f89b64-d6ad-4ce5-a540-2a7895012943_1742x650.png 1272w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" 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Aquele que escreve (o autor)</strong></p><p>A escrita &#233; palavra que passa de quem a quem. Passa do quem-autor para o quem-leitor. Uma parte enorme do artif&#237;cio (da arte e do of&#237;cio) e do esfor&#231;o de escrever &#233; lidar com isso. Pode ser para deixar claro quem est&#225; escrevendo, pode ser para ocultar quem est&#225; escrevendo. Isto &#233;, pode ser atrav&#233;s de t&#233;cnicas que fazem o autor como que sumir; ou de modo a fazer de conta que o texto &#233;, no fundo, como que a voz do leitor.</p><p>Eu costumo escrever sobre metaf&#237;sica e filosofia da mem&#243;ria. Eu tento como que sumir no processo, mas estou por todas as partes. Mas n&#227;o, minha onipresen&#231;a n&#227;o me d&#225; ilus&#227;o de onipot&#234;ncia ou onisci&#234;ncia. Meu texto &#233; t&#227;o falho quanto eu mesmo.</p><p><strong>2. O leitor</strong></p><p>Assim como h&#225; um quem que escreve, h&#225;, com sorte, ao menos um quem que l&#234;. Nada impede que os dois sejam a mesma pessoa. Escrevemos para n&#243;s mesmos o tempo todo. Esta escrita pode ser mais solene e secreta, como vemos nos di&#225;rios, ou t&#227;o banal quanto uma lista de compras.</p><p>Na escrita para os outros voc&#234; precisa ter clareza sobre quem &#233; seu p&#250;blico. H&#225; leitores que n&#227;o t&#234;m nenhum interesse especial em ler o que <em>voc&#234;</em> escreve mas te leem porque voc&#234; escreve sobre assuntos que <em>lhes</em> interessam. Por exemplo, se voc&#234; escreve sobre porcas e parafusos, os nerds das porcas e dos parafusos v&#227;o te ler n&#227;o porque voc&#234; &#233; voc&#234;, mas porque voc&#234; escreve sobre porcas e parafusos. E, caso queira ser lido por esses leitores &#233; bom que voc&#234; tenha algo a dizer sobre porcas e parafusos e seja objetivo. Se voc&#234; n&#227;o tratar do assunto que os interessa, voc&#234; n&#227;o ser&#225; lido. Se voc&#234; n&#227;o for objetivo, o leitor jogar&#225; seu texto (ou trecho do seu texto) numa intelig&#234;ncia artificial e dar&#225; o comando &#8220;TL;DR&#8221;, o qual significa &#8220;longo demais; n&#227;o li&#8221; (<em>too long; didn&#8217;t read</em>). Da&#237; quem ser&#225; lida ser&#225; a m&#225;quina, esta ningu&#233;m.</p><p>Em alguns casos, os leitores v&#234;m em ondas. Na escrita acad&#234;mica avaliada por pares h&#225; um primeiro filtro de leitores especialistas antes do seu texto ser disponibilizado aos leitores finais. Este primeiro filtro &#233;, por exemplo, a banca do seu TCC, da sua disserta&#231;&#227;o de mestrado, da sua tese de doutorado; s&#227;o os pareceristas do artigo que voc&#234; submete a uma revista acad&#234;mica; &#233; o editor do jornal, seja esse um jornal da par&#243;quia ou outro tipo de jornal, se &#233; que h&#225; algum tipo de jornal que n&#227;o seja um jornal de <em>alguma</em> par&#243;quia. Nesses casos, voc&#234; tem que escrever levando em conta, antes de tudo, os <em>gatekeepers</em>, isto &#233;, a barreira de le&#245;es de ch&#225;cara formada por bancas, revisores, e editores. Isto &#233;: caso queira ser publicado, de modo a ser lido pelos leitores de uma certa publica&#231;&#227;o, escreva de modo a ser aprovado pelos avaliadores que filtram as publica&#231;&#245;es.</p><p>Numa linha, nunca perca de vista sua audi&#234;ncia, seu papel na rela&#231;&#227;o com seus leitores, e seus objetivos.</p><p><strong>3. O assunto</strong></p><p>O assunto &#233; aquilo sobre o que voc&#234; escreve. O Facebook &#233; bom em sugerir assunto: &#8220;No que voc&#234; est&#225; pensando agora?&#8221; Professores tamb&#233;m: &#8220;Escreva uma reda&#231;&#227;o sobre os pontos positivos e os pontos negativos da gravidade da Terra&#8221;.</p><p>&#201; importante que o assunto te interesse? N&#227;o. Voc&#234; pode escrever exatamente para ver se desenvolve um interesse. Ou porque a escrita sobre um tema que n&#227;o te interessa &#233; um meio para obter um t&#237;tulo que te interessa.</p><p><strong>4. A l&#237;ngua</strong></p><p>Inevitavelmente, voc&#234; escreve numa l&#237;ngua ou microl&#237;ngua. Uma microl&#237;ngua &#233; um acordo fugaz que surge numa conversa sobre o que certa palavra deveria significar. Sugir consultar o trabalho do fil&#243;sofo Peter Ludlow sobre este assunto. Uma l&#237;ngua &#233; uma abstra&#231;&#227;o de diversas microl&#237;nguas espalhadas em certos espa&#231;os e tempos. Use as caracter&#237;sticas formais da sua microl&#237;ngua a seu favor. Explore habilmente o vocabul&#225;rio da sua microl&#237;ngua. E crie uma nova microl&#237;ngua entre voc&#234; autor e seu leitor. At&#233; porque isso tamb&#233;m &#233; inevit&#225;vel.</p><p>Teu uso de palavras pode encontrar acolhimento ou resist&#234;ncia nos teus leitores. E assim, de certa forma, tu e teus leitores est&#227;o a negociar o significado das palavras. Cada uma das tuas frases &#233; como uma proposta de cl&#225;usula de contrato lexical com teus leitores. Cada acolhimento ou resist&#234;ncia dos teus leitores &#233; uma negocia&#231;&#227;o dessas cl&#225;usulas.</p><p><strong>5. O tom de voz</strong></p><p>O tom de voz &#233; a presen&#231;a distintiva do autor na p&#225;gina. &#201; a personalidade do autor na p&#225;gina. Trata-se de um elemento que vai al&#233;m do assunto do texto, pois trata-se de voc&#234;, o autor e, ao menos que voc&#234; esteja escrevendo uma autobiografia, voc&#234; n&#227;o &#233; o assunto do seu texto.</p><p>Note que um leitor pode n&#227;o dar muita bola para o assunto sobre o qual voc&#234; escreve, mas pode gostar do teu jeito de escrever sobre o que quer que seja. Esse leitor volta aos teus textos por causa da tua presen&#231;a na p&#225;gina. &#201; a tua energia que prende o leitor. Ou teu entusiasmo. Ou teu humor &#225;cido. Ou tua falta de humor. Sei l&#225;. O leitor se prende &#224; maneira como voc&#234; se envolveu com o assunto. O leitor tem curiosidade (empat&#233;tica ou voyeur&#237;stica) sobre a bagagem emocional por detr&#225;s da tua escrita. Se quiser ler mais sobre o assunto, recomendo o livro <em>Como Escrever Bem</em>, de William Zinsser (Editora F&#243;sforo, 2021).</p><p>Sou professor faz d&#233;cadas e j&#225; orientei monografias de todo tipo de pessoa. Um tipo de orientando que me agrada muito vem do conjunto (ou interse&#231;&#227;o de conjuntos) daqueles que s&#227;o velhos e foram oper&#225;rios a vida toda com aqueles que s&#227;o novos ou velhos e leem livros de &#243;timos autores. Isto porque este p&#250;blico simplesmente escreve tal como pensa e, por isso, as vozes dessas pessoas no papel s&#227;o fortes e persuasivas. Ao ler os textos de alunos septuagen&#225;rios que trabalharam em carvoarias ou outros of&#237;cios pr&#225;ticos a vida toda, &#233; como se eu ouvisse suas vozes na p&#225;gina, e isso funciona muito bem em filosofia ou em qualquer outro tema. Nestes alunos h&#225; uma abertura da mente e uma franqueza que n&#227;o se encontram no mesmo grau nos textos de quem n&#227;o tem uma vida ou uma bagagem cultural de qualidade t&#227;o profunda. Algo semelhante se d&#225; quando o orientando conhece de cor e por gosto a <em>B&#237;blia</em> e os cl&#225;ssicos (da literatura e da filosofia) e os revisita frequentemente em busca de prazer liter&#225;rio.</p><p>&#201; o tom de voz que faz com que o bom jornalismo e bons textos t&#233;cnicos se tornem boa literatura. Um dos melhores livros que j&#225; li &#233; o manual <em>The TEXbook</em>, de Donald Knuth. E trata-se, veja bem, do manual de uso de uma linguagem tipogr&#225;fica. Este livro teria tudo para ser &#225;rido. Mas &#233; suculento. Em casos como esse, o autor est&#225; simplesmente fazendo o que sabe fazer bem e se expressando com leveza e clareza. Aqui h&#225; uma li&#231;&#227;o para n&#243;s, pois podemos seguir esses exemplos. Isto &#233;, podemos buscar maneiras de escrever que nos fa&#231;am nos sentir mais confort&#225;veis. E, com isso, nossos leitores voltam porque querem mais escrita sem tens&#227;o advinda da ignor&#226;ncia ou obtusidade. De novo, um bom guia sobre este assunto &#233; o livro <em>Como Escrever Bem</em>, de William Zinsser.</p><p>O tom de voz na p&#225;gina tem a ver, em suma, com a franqueza que transparece a partir das palavras que voc&#234; p&#245;e no papel. A sua paix&#227;o e envolvimento com o tema d&#227;o enorme valor ao seu texto. E isso &#233; algo que n&#227;o se extrai facilmente com o uso de um &#8220;TL;DR&#8221;. Isso porque sua voz &#233; voc&#234; na p&#225;gina, e voc&#234; n&#227;o &#233; uma m&#233;dia estat&#237;stica. Voc&#234; &#233; voc&#234;. E s&#243; voc&#234; &#233; voc&#234;. E s&#243; voc&#234; aqui e agora &#233; voc&#234; aqui e agora. Mas note que isso n&#227;o &#233; a coisa pregui&#231;osa de simplesmente jogar sua opini&#227;o na p&#225;gina, pois tua pregui&#231;a tem poucas chances de convencer algum leitor de ir adiante na leitura.</p><p>Teu tom de voz tamb&#233;m transparece tua compreens&#227;o de quem est&#225; te lendo. Para tua escrita dar certo, voc&#234; tem que entender como a mente do seu leitor funciona. Voc&#234; tem que apertar os bot&#245;es certos na mente dos outros. Pense nas piadas. Por exemplo:</p><p>Qual &#233; a o melhor momento para comprar um morcego?</p><p>Quando est&#227;o baratos.</p><p>N&#227;o &#233; preciso ser um psic&#243;logo formado e diplomado para entender porque este tipo de bobagem tem gra&#231;a para abobados como eu. De qualquer forma, o que se d&#225;, quando uma piada funciona, &#233; que o autor entende como a mente do leitor funciona. E, ao rir, o leitor nota que o autor entende sua cabe&#231;a. &#201; assim que o humor cria um v&#237;nculo emocional positivo entre humorista e audi&#234;ncia, autor e leitor. &#201; assim, entendendo a mente do leitor, que o leitor se prende a ti como autor por causa do teu tom de voz.</p><p>O tom de voz tem a ver, tamb&#233;m, com o c&#225;lculo da quantidade de palavras, e da qualidade das palavras. N&#227;o d&#234; uma palestra para uma crian&#231;a. N&#227;o se limite a escrever &#8220;N&#227;n&#227;n&#227;&#8221; no seu livro. Escolha o quanto e de que maneira vai se comunicar a partir do teu conhecimento pr&#233;vio da mente do teu p&#250;blico. Ao fazer isso, voc&#234; ser&#225; bem julgado pelos teus leitores. Uma boa leitura sobre isso &#233; o livro <em>A Arte da Pesquisa</em>, de Booth, Colomb, e Williams (Editora Martins Fontes, v&#225;rias edi&#231;&#245;es).</p><p>Enfim, estamos falando sobre estilo de escrita e, como estamos vendo, fixar a voz no papel envolve um monte de psicologia.</p><p><strong>6. Onde? O meio de escrita</strong></p><p>Para falar sobre os meios e as bases materiais para a escrita, &#233; importante, antes, distinguir o ato de escrever do ato de publicar. Isso porque escrever n&#227;o &#233; meramente transferir ideias que est&#227;o na mente para o papel. Muito menos teletransportar suas ideias para as mentes dos outros. N&#227;o. Em vez disso, para come&#231;o de conversa, a m&#237;dia escolhida, com suas facilidades e resist&#234;ncias, altera o que escrevemos. Por exemplo, eu gosto de escrever os primeiros rascunhos usando uma m&#225;quina de escrever digital que me permite ver no m&#225;ximo duas linhas do meu texto de cada vez. Isso me impede de navegar pelo meu texto com facilidade. Isso me obriga a escrever uma frase de cada vez. E, com isso, me ocupo mais de ir adiante no texto, no ato de rascunhar, do que no revisar o que antes escrevi. &#201; claro, ao revisar o texto, releio tudo. Mas isso vem depois.</p><p>O ponto, em resumo, &#233; que a forma do texto deriva, ao menos em parte, do meio de escrita. Assim, aquele surrado slogan que o meio &#233; a mensagem tem um fundo de verdade. E, assim sendo, voc&#234; aprende algo ao escrever. Se escrever fosse mera transmiss&#227;o da m&#237;dia mental para a m&#237;dia do papel, ter&#237;amos algo como fazer um Pix. O mesmo valor sai de um lugar e entra n&#8217;outro lugar. Mas n&#227;o &#233; isso que acontece. Primeiro, porque n&#227;o &#233; instant&#226;neo. Segundo, porque &#233; um <em>processo</em> criativo. Voc&#234; tem que recriar o que quer que voc&#234; esteja pensando no meio de escrita que voc&#234; est&#225; utilizando. Um dos meus alunos por exemplo, era um av&#244; cheio de energia mas com poucos recursos que s&#243; tinha seu smartphone como meio de escrita para a vers&#227;o final do seu TCC. Sem teclado externo. Seu texto ficou muito bom porque ele escrevia bem e porque ele soube lidar bem com as limita&#231;&#245;es. Ele usou as limita&#231;&#245;es a seu favor. Em vez de lamentar o que n&#227;o tinha, ele celebrou o que tinha. Ele gostou do que escreveu, e eu tamb&#233;m.</p><p>Enfim, em que m&#237;dia escrever? Com o que escrever? Com o que quer que seja que voc&#234; disponha e te seja confort&#225;vel. Caneta e papel, por exemplo. Ou recursos online tais como o Google Docs. Mas, ao menos para primeiras vers&#245;es, sugiro a simplicidade de um editor de textos do tipo .txt.</p><p><strong>7. Por qu&#234;? O motivo da escrita</strong></p><p>H&#225; muitas raz&#245;es para escrever. A primeira, muitos de voc&#234;s v&#227;o me lembrar, &#233; que voc&#234;s precisam escrever para receber um certo t&#237;tulo de bacharel, mestre, doutor etc. Sim, eu sei. Mas h&#225; outras raz&#245;es mais interessantes.</p><p>Sem d&#250;vida, voc&#234; pode escrever para registrar seus pensamentos. Este &#233; um &#243;timo uso da escrita. Um di&#225;rio, por exemplo, te permite ganhar perspectiva sobre ti mesmo. Algo que ter era dolorido num momento pode se mostrar irrelevante n&#8217;outro momento e, assim, tu aprende algo sobre ti mesmo ao ler o que pensou.</p><p>Mas h&#225; mais. Escrever &#233; uma &#243;tima maneira de descobrir impensados. Antes de come&#231;ar a escrever, voc&#234; tem certas ideias sobre o assunto. Mas, ao escrever e interagir com o que voc&#234; escreveu, surge espa&#231;o para desenvolvimentos que n&#227;o poderiam ser feitos t&#227;o eficazmente no espa&#231;o cerrado da mente. Esses desenvolvimentos, n&#227;o raro, te fazem repensar a coisa toda. A partir do texto escrito voc&#234; pode chegar a conclus&#245;es que nunca chegaria se n&#227;o tivesse escrito. E, assim, escrever &#233; um modo de descobrir. Se este assunto te interessa, leia o j&#225; indicado livro <em>A Arte da Pesquisa</em>.</p><p>O que estou dizendo &#233; que voc&#234; pode escrever para entender. &#201; o ato de escrever que te permite entender mais clara e profundamente certas coisas. &#201; na reorganiza&#231;&#227;o das ideias na p&#225;gina que aparecem nuances, conex&#245;es, desafios e consequ&#234;ncias antes n&#227;o notadas. Assim, a escrita te permite pensar por escrito. Seu TCC, sua disserta&#231;&#227;o, sua tese, seu artigo, seu livro: eis voc&#234; pensando por escrito. Neste pensamento, os desejos foram substitu&#237;dos por premissas, as associa&#231;&#245;es de ideias por rela&#231;&#245;es l&#243;gicas. O resultado &#233; pensamento com curadoria. </p>]]></content:encoded></item></channel></rss>